A colonialidade do discurso climático

Desvendando narrativas climáticas hegemônicas que moldam as negociações globais do clima por meio de uma abordagem interseccional e decolonial.
Manifestantes em Belém contra a exploração de petróleo no rio Amazonas. 13 fev. 2025. (ELISEU PEREIRA)

Este artigo foi publicado em inglês na edição de outono de 2025 da nossa revista trimestral NACLA Report.


O conceito predominante de desenvolvimento e progresso foi moldado pelo colonialismo, um sistema monocultural de dominação que continua a ditar nossas interações com os ecossistemas e entre nós. A colonialidade permeia todas as dimensões da vida social, inclusive o discurso do clima. O que chamamos de mudança climática não é apenas um fenômeno ambiental; é um processo histórico, enraizado nas transformações violentas que começaram com a colonização europeia de Abya Yala/América Latina e globalizadas por séculos de expansão imperial. Hoje, as arenas e narrativas climáticas dominantes – especialmente as que circulam por meio da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) – perpetuam ações climáticas baseadas em princípios coloniais de escassez, binarismo e extrativismo, em vez de abrir caminhos para uma transformação genuína.

Na COP30 no Brasil em novembro deste ano, movimentos sociais, governos, empresas e atores da sociedade civil se reunirão com grandes expectativas uma década após o Acordo de Paris. Eles trarão demandas conflitantes para um cenário acalorado no qual a ONU tem se mostrado cada vez mais incapaz de cumprir sua missão de evitar genocídios e apartheid climático em todo o mundo. A conferência em Belém, no coração da Amazônia, é em si uma vitória parcial – conquistada por movimentos locais que insistem que suas lutas pela soberania indígena e integridade territorial estejam na vanguarda dos debates do clima.

O caminho para a COP30 tem sido marcado por contradições e retrocessos. Acordos climáticos injustos continuam a ser fechados às custas dessas pessoas e territórios que há muito tempo exigem justiça climática radical. A coexistência de promessas de “transição” com mais uso de petróleo é um exemplo, já que o governo de Luis Inácio Lula da Silva avança com os planos de extração de petróleo na foz do rio Amazonas. Mas a resistência persiste, como nas comunidades urbanas periféricas e ribeirinhas. Suane Barreirinhas, ativista da Vila da Barca Literária, declarou em um protesto em fevereiro de 2025 em Belém: “É tempo de usarmos a COP30 para ecoar a voz de quem sente na pele a crise climática: pescadores, ribeirinhos e crianças. […] Que este espaço, o nosso rio, seja palco da nossa luta contra esse “desenvolvimento” que nos afeta. Já vimos o desastre de Belo Monte e não aceitamos a perfuração na foz do Amazonas”.

Aqui, desvendamos três narrativas climáticas hegemônicas que moldam e restringem o sistema das negociações internacionais do clima por meio das Conferências das Partes (COPs): tecnologia, transição verde e finanças. Exploramos como esses temas reforçam mutuamente as lógicas coloniais dentro e fora das negociações internacionais do clima. Nossa análise está fundamentada em nossa experiência vivida ao participar das conferências da UNFCCC como parte de grupos interconectados da sociedade civil e em nossa pesquisa sobre justiça climática e decrescimento por meio de abordagens decoloniais, queer, feministas e interseccionais. Centralizamos as vozes e práticas de agentes histórica e atualmente subjugados, enquanto (re)tecemos novos mundos de justiça, comunidade e dignidade para todes.

Descolonizando narrativas e mecanismos climáticos num mundo colonizado

O filósofo Olúfẹ́mi O. Táíwò identifica os séculos XVII a XIX como a era em que as potências europeias estabeleceram o “Império Racial Global”, uma ordem econômica mundial em que os países imperialistas alavancam o domínio geopolítico para extrair recursos do Sul Global de forma barata. Esse sistema se materializa por meio da troca desigual de matérias-primas, energia, terras e mão de obra. No entanto, muitas vezes ignora-se que essa troca desigual é sustentada pela exploração do trabalho de cuidado, inclusive o trabalho doméstico e de subsistência realizado por mulheres, pessoas de gênero dissidente, migrantes, camponeses/as e trabalhadores/as/xs empobrecidos/as/es – especialmente as populações negras e Indígenas. Essas formas de trabalho constituem alguns dos maiores subsídios históricos ao capitalismo neoliberal. Essa dinâmica extrativista prende os países do Sul Global à base da cadeia de valor global, privando-os dos recursos e bens comuns necessários para construir condições de vida dignas para todos. Em vez disso, esses recursos são mobilizados para manter o consumo e o domínio geopolítico no Norte Global.

Esse investimento persistente em guerra e extrativismo predatório ameaça a dignidade humana e, ao mesmo tempo, devasta comunidades marginalizadas, transformando seus territórios em zonas de sacrifício racial.

Vários relatórios registram esse legado extrativista. Os sete maiores emissores históricos de gases de efeito estufa também estão entre os 10 maiores gastadores militares globais. Entre 2013 e 2021, as nações ricas gastaram US$ 9,45 trilhões em suas forças armadas, superando em muito os US$ 243,9 bilhões alocados para o financiamento climático. Somente em 2022, os subsídios aos combustíveis fósseis chegaram a US$ 7 trilhões, quase o dobro do valor gasto globalmente em educação. Esse investimento persistente em guerra e extrativismo predatório ameaça a dignidade humana e, ao mesmo tempo, devasta comunidades marginalizadas, transformando seus territórios em zonas de sacrifício racial – regiões que se tornaram inseguras ou inabitáveis devido à degradação ambiental. Como a ex-relatora especial da ONU, E. Tendayi Achiume, destaca em seus relatórios, essas áreas são, em sua maioria, o lar de grupos marginalizados racial, étnica ou nacionalmente: Povos Indígenas, territórios ocupados pela colonização e bairros racialmente segregados no Norte Global.      

O capitalismo racista patriarcal, que impulsiona a violência genocida da Palestina à Nicarágua, tem servido como o princípio organizador do apartheid climático. Ele forjou cadeias de dependência que permitem a subordinação racista do Sul. Os/as defensores/as de territórios pagam com suas vidas. De acordo com a Global Witness, quase 2.000 foram mortos entre 2012 e 2022. A Colômbia continua sendo o país mais violento, e os/as defensores/as Indígenas e Afrodescendentes – especialmente na Amazônia – enfrentam ameaças desproporcionais, tortura e violência como parte de suas realidades cotidianas. Ainda assim, a resistência persiste.  Como afirma Shruti Suresh, co-diretora de campanhas da Global Witness: “Apesar de estar sendo ameaçado por ações irresponsáveis de empresas e governos, esse movimento global de pessoas, unidas pela determinação e pelo compromisso de defender seus lares e comunidades, está se mantendo firme – e elas não podem e não serão silenciadas.”

Reunião do Grupo de Trabalho Internacional da Cúpula dos Povos no Rio de Janeiro, maio de 2025. (CORTESIA DA CÚPULA DOS POVOS)

O processo que solidificou o “Império Racial Global” não é apenas material, mas também epistemológico e ontológico. As formas como vemos, nos relacionamos e sonhamos com nossos mundos estão ligadas às realidades materiais de exploração, saqueamento, ecocídios, etnocídios, genocídios e epistemicídios, que são consequências interligadas do capitalismo racista patriarcal. A persistente colonialidade do poder, do conhecimento, do gênero e da natureza é um meio de manter a distribuição desigual de materiais e mão de obra dentro das nações e entre elas, evidenciada pela hegemonia das visões de mundo coloniais atuais, desde instituições estatais até normas e discursos culturais.

Nossa visão de nós mesmos/as/es, de nossas espécies irmãs e dos territórios que habitamos permanece confinada pela lógica binária que a colonização infligiu – não apenas aos colonizados, mas também aos colonizadores. Essa estrutura oposicionista de organizar nossos (eco)sistemas aumenta a separação, enfraquece nossa interdependência e o cuidado com outras espécies e comunidades, reduz as possibilidades de reparo e justiça no presente e no futuro e drena as fontes imaginativas para os mundos que precisamos para florescer e viver com dignidade. Em vez disso, somos deixados/as/es para sobreviver com as escassas gotas que o capitalismo distribui: o gênero binário que viola e mata corpos dissidentes; o mito da eficiência de recursos que esgota nosso descanso, criatividade e cuidado mútuo a serviço do lucro; as estruturas persistentes da supremacia branca que dão poder aos beneficiários da escravidão enquanto criminalizam vidas negras e migrantes que buscam liberdade além das ficções coloniais das prisões e fronteiras que destroem formas coletivas de vivenciar o mundo. Esse é o terreno em que as narrativas sobre o clima são construídas, disfarçando o apartheid climático como soluções justas. Mas quando olhamos mais de perto, percebemos vários mecanismos de colonialidade nelas.

Tecnologias Climáticas e a Nova Face do Colonialismo do Carbono

Sob a aceleração do capitalismo, o mundo corre contra o tempo por meio de uma visão de túnel de carbono, concentrando-se estritamente nas emissões e ignorando as conexões sistêmicas entre o apartheid climático e o agravamento das crises globais, como perda de biodiversidade, poluição, esgotamento de recursos e desigualdade, ignorando os limites planetários. A “métrica de carbono” surgiu como uma ferramenta de quantificação limitada, criando uma ilusão de progresso por meio do comércio de emissões, enquanto a degradação ambiental real continua.   

Nos últimos anos, várias tecnologias foram popularizadas e comercializadas como compensações positivas para alcançar emissões “líquidas zero”, ou Net Zero. No entanto, muitas delas são distrações perigosas: arriscadas, não comprovadas e que geralmente exigem grandes extensões de terra. Entre os exemplos estão as técnicas de geoengenharia, como o gerenciamento da radiação solar e a fertilização dos oceanos, a captura e o armazenamento de carbono da bioenergia, as soluções baseadas na natureza (Nature based Solutions – NbS) e os mercados de carbono.

Na prática, os planos de emissões “líquidas zero” significam que as emissões continuarão – e os sistemas extrativistas exploradores que as produzem, com a promessa de que serão compensadas em outro lugar, longe dos impérios globais. Isso é essencialmente uma licença para “queimar carbono agora e pagar depois”, em que os custos são externalizados para as comunidades do Sul Global.  Essas compensações de carbono geralmente resultam em deslocamento forçado, violações de direitos territoriais coletivos e negligência contínua da apropriação histórica desproporcional dos bens comuns atmosféricos. Essa convicção de que a tecnologia pode resolver todos os problemas sociais, também conhecida como “tecno-chauvinismo”, reforça a confiança excessiva em soluções baseadas no mercado como resposta às mudanças climáticas.

O governo do Pará, estado anfitrião da COP30, tem se apressado em fechar acordos de colonialismo de carbono que parecem verdes aos olhos do mundo. Em 2024, o governador Helder Barbalho concordou em vender US$ 180 milhões em créditos de carbono no Pará para a coalizão LEAF, formada por multinacionais poluidoras, incluindo a Amazon, a Bayer e a Fundação Walmart, juntamente com os governos da Noruega, do Reino Unido e dos Estados Unidos. O mercado de carbono é alimentado por consumidores/as privilegiados/as que, ignorantemente, caem na armadilha da compensação de carbono; e pela ganância de multinacionais e países com alto nível de emissão, que se aliam às autoridades locais para impor contratos abusivos de captura de carbono às comunidades florestais. Celebrado pela mídia neoliberal como um marco inédito para a preservação, o acordo foi duramente criticado por grupos afetados de Povos Indígenas e da floresta, e ONGs socioambientais por sua falta de transparência. Em 2025, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) recomendaram a anulação do acordo. Como protestou a líder indígena Alessandra Korap Munduruku: “Nossas lideranças não foram consultadas, nos venderam como uma mercadoria.”

Narrativas Corporativas de Transição Verde e o Continuum Colonial

Até 2050, a demanda por determinados minerais deverá aumentar em quase 500 por cento, especialmente aqueles concentrados em tecnologias de armazenamento e transmissão de energia, como lítio, grafite e cobalto. Isso faz com que a África e a América Latina, especialmente, sejam as despensas desses chamados minerais críticos ou estratégicos necessários para sustentar o status quo no Norte Global. Cerca de 85 por cento das reservas mundiais de lítio estão localizadas no chamado “Triângulo do Lítio”, que abrange o norte da Argentina, o sul da Bolívia e o Chile. O extrativismo verde assume muitas formas, incluindo o desmatamento para a exportação em massa de madeira balsa usada na construção de pás de turbinas eólicas e a mineração para a produção de baterias de veículos elétricos.

A rotulagem de minerais como “críticos” ou “estratégicos” reflete o tecnochauvinismo imperialista. Ela mercantiliza territórios inteiros para exploração sob a justificativa de que esses recursos são essenciais para o funcionamento das tecnologias, economias e forças armadas de potências hegemônicas como os Estados Unidos e a União Europeia. Dando continuidade aos padrões coloniais, os países imperiais e as corporações monopolistas alavancam seu domínio geopolítico para firmar novos acordos que perpetuam a dinâmica da troca desigual. Minerais essenciais, predominantemente consumidos por países “centrais”, são extraídos de países da “periferia” por grandes multinacionais, reforçando narrativas de “subdesenvolvimento” e dependência de exportação de matéria-prima.

Os países do Norte se posicionam como vanguardistas na redução de emissões e na proibição de indústrias sujas dentro de suas fronteiras, enquanto aumentam as importações de combustíveis fósseis do Sul.

Essa transição “verde” corporativa – focada em soluções tecnológicas, mudanças na matriz energética e eletrificação da economia – busca manter os níveis de consumo imperiais e, ao mesmo tempo, perpetuar a falácia do crescimento econômico infinito. Ironicamente, os países do Norte se posicionam como vanguardistas na redução de emissões e na proibição de indústrias sujas dentro de suas fronteiras, enquanto aumentam as importações de combustíveis fósseis do Sul. Como observa o acadêmico e ativista Hamza Hamouchene: “Deslocar os custos de um setor tão destrutivo do Norte para o Sul é uma estratégia do capital imperialista na qual o racismo ambiental está associado ao colonialismo energético”.

O Manifesto dos Povos do Sul: Por uma Transição Energética Justa e Popular, formulado por movimentos de base e grupos ambientais em Abya Yala, é bem claro: “Essa descarbonização para os ricos, um processo orientado para a exportação e conduzido por grandes corporações, é construída em uma nova fase de destruição ambiental do Sul Global que afeta a vida de milhões de mulheres, homens e crianças, sem mencionar a vida não humana. As mulheres, especialmente nos territórios rurais, estão entre as mais afetadas. Dessa forma, o Sul Global se tornou mais uma vez uma zona de sacrifício, um depósito de recursos supostamente inesgotáveis para os países do Norte.”

A dívida ecológica e histórica que o Norte tem com o Sul cresce enquanto é obscurecida pelas arquiteturas financeiras construídas pelo próprio Norte. Isso empurra os governos do Sul para o extrativismo predatório e a expansão das exportações para pagar dívidas impagáveis em moeda estrangeira, criando um ciclo vicioso de destruição e dependência. Para romper essa ordem econômica abusiva, é necessário descolonizar nossos sistemas de crença e poder e, acima de tudo, nossas relações com os bens comuns: a terra, o sol, o vento, a água, outras espécies e comunidades. Uma transformação verdadeira exige não apenas uma mudança no discurso, mas também na ação – na maneira como abordamos a “natureza” para reconhecer nossa dependência e parte intrínseca dentro dela. Uma visão feminista queer de uma Transição Justa reconhece nossa interdependência ecossistêmica com outras espécies e comunidades. Ela dignifica o trabalho ao tornar todas as suas formas visíveis e valiosas, sem discriminação ou divisões binárias baseadas em gênero, raça, status migratório ou acesso a recursos.

Auricélia Arapium, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) no encontro internacional da Cúpula dos Povos, onde os movimentos articularam demandas rumo à COP30 em Belém, maio de 2025. (AMARÍLIS MARISA)

As raízes coloniais do financiamento climático

Os mecanismos financeiros desempenham um papel fundamental no apoio à ação climática. Entretanto, o atual cenário de financiamento climático, dominado por empréstimos em vez de doações, perpetua um ciclo de dívida e dependência para os povos e territórios mais afetados pelo apartheid climático. O financiamento climático opera sob uma narrativa colonial de caridade, na qual os colonizadores se transformam de saqueadores em salvadores benevolentes – doadores – que definem o ritmo e qualificam o que é progresso e desenvolvimento. Os discursos de financiamento climático enquadram as obrigações dos países do Norte como caridade em vez de responsabilidade histórica pela dívida ecológica. O Fundo Verde para o Clima, por exemplo, fornece principalmente financiamento climático na forma de empréstimos e rotineiramente celebra “a generosidade dos países contribuintes” em vez de reconhecer suas obrigações históricas.

De 2011 a 2020, aproximadamente 95 por cento do financiamento climático público e privado foi fornecido com a expectativa de retorno, principalmente por meio de empréstimos. Em 2021, dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostraram que o financiamento público climático dos países desenvolvidos, fornecido bilateralmente e por meio de canais multilaterais, atingiu US$ 73,1 bilhões, dos quais 72 por cento foram emitidos como dívida.

Instituições como o Banco Mundial – criado em 1944, quando a maior parte da África continuava colonizada – exercem um poder significativo sobre os mecanismos e a distribuição do financiamento climático. Essas instituições mantêm as raízes coloniais por meio da tomada de decisões antidemocrática e das condicionalidades dos empréstimos. Seus programas de austeridade priorizam as metas fiscais em detrimento do bem-estar humano, exigindo cortes nos salários e nos investimentos sociais em nome da “sustentabilidade da dívida”.

A criação de novos pacotes de empréstimos condicionais para países empobrecidos altamente endividados exige a redução das alocações orçamentárias para programas de proteção social, maternidade e creche, programas de apoio a vítimas de violência de gênero, subsídios sustentáveis para alimentos ou energia e serviços públicos básicos como educação, saúde, moradia, água e saneamento. Esses cortes prejudicam desproporcionalmente as pessoas de gênero dissidente, as mulheres não brancas e migrantes sem documentos – aqueles/as/us que vivem à margem da nossa sociedade neoliberal e são forçados/as/es a realizar trabalhos domésticos e informais não remunerados para sobreviver. Devido ao seu papel predominante na reprodução social, estruturado por divisões sexuais, raciais e geográficas do trabalho, seu trabalho invisibilizado se torna um “amortecedor” para cortes nos serviços públicos. Esse sistema de financiamento “verde” prioriza o pagamento da dívida em detrimento da transformação ecossocial, que pode tratar das injustiças e das mudanças climáticas ao mesmo tempo.

Caminhos para a justiça climática decolonial

A partir da nossa crítica interseccional sobre o peso da dívida, das tecnologias corporativas e das pressões extrativistas associadas às narrativas coloniais de transição, passamos às propostas radicais de justiça climática comprometidas com a abolição do capitalismo racista patriarcal e suas brechas coloniais, a saber: reparações, desvinculação (delinking), decrescimento e cancelamento da dívida.

Reparações

Desde 1492, o Império Racial Global gerou deslocamento forçado, genocídio, extinção de espécies não humanas, guerras, prisões, poluição e pandemias – para citar apenas alguns de seus efeitos nocivos. Reconhecer os legados coloniais significa ir além do que o acadêmico martinicano Malcom Ferdinand chama de “simpatia sem conexão”: a consciência das injustiças globais sem reconhecimento de como os privilégios em um lugar (ex.: Norte Global) estão historicamente ligados a injustiças em outros lugares (ex.: Sul Global). Ferdinand aponta para a exclusão persistente das demandas antirracistas, antipatriarcais e descoloniais dos movimentos ambientais hegemônicos, predominantemente brancos, no Norte Global.

Compreender os vínculos histórico-estruturais entre o passado e o presente que moldam nossas diferenças coloniais hoje significa reconhecer que os colonizadores responsáveis pelo que hoje chamamos de “perdas e danos” têm uma dívida imensurável com povos, territórios e seres despossuídos e explorados. Esses danos são quantificáveis e não quantificáveis, permanentes e irreversíveis. Eles incluem a perda de entes queridos, culturas, idiomas e ecossistemas, desperdiçados durante a construção e a manutenção do Império Racial Global.

Mesmo que seja uma tarefa impossível atribuir um valor monetário a essas perdas, o enfrentamento do apartheid climático exige que os países historicamente responsáveis e as multinacionais respondam às suas obrigações com maior responsabilidade. Além das reparações monetárias, é possível construir novos mundos além do Império Racial Global, construir, como Táíwò escreve em Reconsidering Reparations, “um mundo onde as pessoas possam se relacionar umas com as outras em termos de não dominação, em vez de nos termos de dominação que herdamos”.

Desvinculação em direção à soberania

É essencial fortalecer a interação e o intercâmbio entre os movimentos populares, passando de um papel passivo no consumo de bens e serviços para o exercício da dignidade coletiva. Essa visão está subjacente a propostas como a do Bem Viver (Buen Vivir), enraizada na convivialidade e no bem-estar relacional. Uma visão coletiva em direção à soberania se estende a questões financeiras, energéticas e alimentares. A desvinculação (Delinking), conforme proposto pelo teórico Samir Amin, é uma abordagem seletiva e não isolacionista que visa a afirmar um maior controle sobre as prioridades locais e regionais. Ela enfatiza a autossuficiência econômica, salários justos e acesso equitativo aos bens comuns a fim de reduzir a dependência de mercados e investimentos estrangeiros.

Essa soberania envolve repensar as formas de conhecimento técnico-científico disponíveis para o capital e avançar em direção a uma troca entre sistemas de conhecimento popular, ancestral e científico. Isso também implica recuperar a noção de uma Transição Justa – uma transição baseada na energia como um bem comum, parte de uma transformação em direção a uma distribuição de responsabilidades equitativa e solidária. A verdadeira transição não se trata de novos direitos individuais enquadrados por alternativas de consumo e tecnologias eletrificadas, mas, acima de tudo, de uma transformação dos sistemas ideológicos que justificam a hegemonia política, econômica e militar por meio de uma organização patriarcal, racista e colonial. Nas palavras da socióloga Sandra Rátiva-Gaona, “é mudar definitivamente as condições de existência da própria vida”.

Os movimentos sociais e as organizações da América Latina e do Caribe estão unindo forças para fortalecer a Cúpula dos Povos rumo à COP30. Essa arena coletiva promove a solidariedade transnacional e caminhos reais para a justiça em face ao fascismo, aos fundamentalismos, às guerras e à financeirização da natureza. Seu manifesto pede: “uma transição justa, popular e inclusiva; o direito à terra e território por meio da reforma urbana, agrária e fundiária; a demarcação, titulação e regularização dos territórios indígenas, quilombolas, pesqueiros e tradicionais”.

“Não aos mercados de carbono, não nos vendam.” Ativistas na COP29 em Baku, Azerbaijão, novembro de 2024. (BIANKA CSENKI / THE ARTIVIST NETWORK)

Decrescimento e cancelamento da dívida

Para erradicar sistemas coloniais como o capitalismo e o apartheid climático, precisamos enfrentar séculos de violência contra formas criativas, comunitárias e solidárias de viver na Terra. O desmantelamento desse sistema de produção de escassez exige estratégias de enfrentamento sustentadas e complexas e, o mais importante, a intersecção de lutas decoloniais pela libertação, do Sul Global ao Norte.

O decrescimento oferece uma estrutura para a rápida descarbonização, reduzindo as formas destrutivas e desnecessárias de produção e redirecionando a atividade econômica para garantir as necessidades coletivas. Isso inclui a suspensão de setores como combustíveis fósseis, publicidade, fast fashion (moda rápida), jatos e indústrias de luxo, além de acabar com a obsolescência programada. Simultaneamente, o decrescimento exige o acesso universal a serviços públicos de qualidade, a introdução de garantias de emprego e rendas universais de assistência e a redução do tempo de trabalho – não apenas para reduzir as emissões de carbono, mas também para liberar tempo para cuidados e atividades que nutrem o bem-estar coletivo, como descanso e lazer.

O decrescimento oferece uma estrutura para a rápida descarbonização, reduzindo as formas destrutivas e desnecessárias de produção e redirecionando a atividade econômica para garantir as necessidades coletivas.

Da mesma forma, a justiça da dívida exige o cancelamento de dívidas injustas no Sul Global que perpetuam o legado da exploração colonial e obstruem a justiça climática. O aumento do endividamento significa maior pressão sobre os países do Sul para que explorem excessivamente os bens comuns naturais para o pagamento do serviço da dívida, facilitando o acesso das empresas à terra para obter lucros com a extração. Isso acelera o apartheid climático ao aprofundar as perdas e os danos em países incapazes de responder a catástrofes sem incorrer em mais dívidas.

O ano de 2025 marca o 72º aniversário do chamado “milagre econômico” da Alemanha, possibilitado pelo Acordo de Londres, que cancelou grande parte das dívidas da Alemanha antes e depois da guerra. Esse precedente nos lembra que o alívio da dívida é uma escolha política que pode permitir que os países do Sul liberem espaço fiscal para investir no bem-estar de seu território e de seus povos. Esse ato de solidariedade, assinado por muitas nações colonizadas que hoje vivem uma grave desigualdade econômica, possibilitou a reconstrução econômica da Alemanha. Hoje, esse mesmo gesto deve ser estendido não como uma questão de caridade, mas de justiça.

Do apartheid climático à justiça climática

Diante de processos multilaterais que não estão conseguindo mudar o curso do apartheid climático, desvendamos os interesses imperialistas embutidos na UNFCCC e a dinâmica injusta que eles impõem aos territórios na linha de frente. Desde os legados históricos do colonialismo até a dinâmica contemporânea do capitalismo global, a exploração do trabalho, das terras e dos bens comuns no Sul Global continua a servir aos interesses do Norte e dos setores de elite em todo o mundo. Essas desigualdades arraigadas são agravadas por narrativas e práticas dentro das estruturas de mudança climática, como as COPs, que sustentam a colonialidade por meio de soluções falsas, como créditos de carbono, “correções” tecnológicas, práticas extrativistas predatórias sob o pretexto de transição e financiamento condicionado. Para alcançar a verdadeira justiça climática, devemos exigir reparações materiais e simbólicas por danos históricos e contínuos, o cancelamento da dívida e o desmantelamento dos sistemas econômicos imperialistas. Somente por meio da descolonização de nosso conhecimento, governança e economia é que podemos ter esperança de promover um futuro em que a justiça ambiental e social seja realmente priorizada, transcendendo os legados da exploração e abrindo caminho para vidas dignas e equitativas para todes nós em nossa diversidade – e também para nossas espécies irmãs.


gina cortés valderrama é ativista, defensora e estudiosa colombiana que defende a justiça racial, econômica, climática e de gênero a partir das intersecções do feminismo, da desvinculação e do decrescimento. É co-coordenadora do grupo de trabalho sobre Transição Justa do Grupo Constituinte de Mulheres e Gênero da UNFCCC.

Isadora Cardoso é estudante de doutorado em sociologia em Berlim, com raízes em Pindomara/Brasil, com interesse em abordagens decoloniais, interseccionais e queer sobre conhecimentos, escritos, ativismos e construções de mundos.