
Na manhã do dia 11 de junho, data da abertura da Copa do Mundo na Cidade do México, a capital acordou mais agitada do que de costume. Torcedores com camisetas da seleção mexicana tocavam vuvuzelas e desfilavam pelas ruas com bandeiras. Mas, disputando espaço com a festa, outras imagens tomavam os pontos mais emblemáticos da cidade: cartazes com fotos de desaparecidos, pichações e faixas carregadas por familiares que não estavam dispostos a deixar o futebol ofuscar a crise humanitária do país.
Mães, pais, irmãos, esposos e esposas de diversos estados aproveitaram os holofotes do Mundial 2026 para levar ao mundo uma denúncia que se arrasta há duas décadas: mais de 133 mil pessoas seguem desaparecidas no país, segundo dados oficiais.
A mobilização, porém, não começou no dia do jogo. Nos dias anteriores, os grupos conhecidos como “Madres Buscadoras” já dominavam os noticiários. Na véspera da abertura, organizaram uma marcha fúnebre ao redor do Estádio Azteca — uma imagem que atravessou a bolha da euforia futebolística e chegou às telas do mundo inteiro.
No dia da abertura, os coletivos dividiam as ruas com professores, aposentados, profissionais da saúde e agricultores, cada grupo com suas próprias reivindicações. Entre todas as vozes, a dos familiares de desaparecidos se destacava mais forte. “Por que os procuramos? Porque os amamos! Até quando os procuraremos? Até encontrá-los!”.
Horas mais tarde, no Paseo de la Reforma, principal avenida da cidade, os torcedores comemoravam debaixo de uma tempestade torrencial. Um palco com telão havia sido instalado entre duas rotatórias emblemáticas da capital mexicana: o Anjo da Independência e a Glorieta de la Palma, rebatizada pelos movimentos sociais como “Glorieta dos Desaparecidos”. Os dois monumentos estavam cobertos de fotos e nomes. No meio, o palco e a festa. Em volta, os rostos dos desaparecidos.
Gabriela Alonso, 42 anos, era uma das manifestantes. Há dois anos fundou o Coletivo Luciérnagas Buscadoras, que apoia familiares de desaparecidos na Cidade do México e em outros estados como Estado do México, Tamaulipas, Nuevo León e Veracruz. Alonso segurava um cartaz com a foto do irmão, Yudhistira Piña Villarruel, 27 anos, desaparecido em 30 de setembro de 2024, no bairro periférico de Gustavo A. Madero, na capital mexicana. Ele havia sido aliciado por conhecidos por meio de grupos no Facebook com a promessa de um emprego bem remunerado na venda de terrenos — tática comum de grupos criminosos para atrair jovens em situação de vulnerabilidade. Nos dias seguintes ao sumiço, parou de atender ligações e passou a mandar mensagens a amigos pedindo dinheiro, dizendo que sua vida corria risco. Quinze dias depois, a família encontrou seu corpo no Instituto Médico Legal do Estado do México. “Não pudemos nem nos despedir dele”, conta Alonso. Até hoje, as investigações não avançaram o suficiente para explicar o que aconteceu entre o desaparecimento e a morte de Yudhistira.
Para ela, o caso do irmão é parte de um padrão. “Não acontece com qualquer pessoa. Sempre acontece com os mesmos: os mais pobres, os mais marginalizados, os jovens que vivem nos bairros mais periféricos. O crime organizado os leva porque pode, porque sabe que vão sair impunes”, afirma.
Um governo sem dados
Segundo um relatório da Anistia Internacional publicado em 2025, o México acumulou um total de 133.500 pessoas desaparecidas e não localizadas até dezembro de 2025 — um aumento de 10,5% em relação ao ano anterior. A organização aponta ainda que 88% dos registros de desaparecimentos desde 1950 ocorreram entre 2006 e 2024, período que coincide com a militarização da segurança pública no país.
De acordo com o Registro Nacional de Pessoas Desaparecidas e Não Localizadas (RNPDNO), banco de dados oficial mantido pela Comissão Nacional de Busca (CNB) da Secretaria de Gobernación, 78% dos desaparecidos são homens, predominantemente entre 30 e 59 anos, e 22% são mulheres, em sua maioria entre 18 e 29 anos. As motivações por trás dos casos, no entanto, não constam nos registros oficiais.
Para Rita Balderas, pesquisadora e professora da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da UNAM, essa lacuna é intencional. “O governo nos fornece dados muito opacos para não gerar um escândalo nacional. O que fazem é ‘chutar o problema para escanteio’ — esquivar-se da responsabilidade, repassando a questão para outra instância para não ter que lidar com ela”, avalia a pesquisadora.
Diante da falta de dados públicos, Balderas realizou uma pesquisa com amostra representativa em todos os estados do país. Ao longo de nove meses, coletou 801 depoimentos de familiares de pessoas desaparecidas. O retrato obtido foi praticamente uniforme: quem busca os desaparecidos são as próprias famílias — e, na maioria dos casos, mães. Nove em cada dez o fazem sozinhas, enquanto enfrentam diversos estigmas sociais e são revitimizadas pelas próprias instituições do Estado.
Quem busca os desaparecidos são as próprias famílias — e, na maioria dos casos, mães.
Os dados do estudo revelam que a crise vai além da narrativa oficial. Metade dos casos está relacionada ao crime organizado. Balderas distingue dois tipos de desaparecimento ligados a esse fator: o voluntário, quando pessoas se filiam a grupos criminosos, e o forçado. “O narcotráfico é uma indústria — e não apenas de sicários ou de atividades ilícitas. Também precisam de pessoas que limpem suas casas e realizem outros tipos de serviços”, explica a pesquisadora.
Segundo seu estudo, outros 40% dos casos estão ligados à violência contra as mulheres. Quatro em cada dez mulheres que sofrem violência posteriormente desaparecem e são encontradas mortas, o que coloca os feminicídios como fator determinante nas estatísticas de desaparecimento. O terceiro fator, responsável pelos 10% restantes, é um dos menos debatidos publicamente: a violência intrafamiliar. O estudo mostra que jovens entre 14 e 20 anos abandonam suas casas para escapar de abusos domésticos, mas as famílias registram o desaparecimento mesmo assim.
Desaparecer pessoas: um ofício que se aperfeiçoa
Muitos dos desaparecimentos seguem um padrão que, segundo Balderas, já se consolidou como uma prática sistemática. Os responsáveis conhecem os pontos cegos das cidades, sabem quais câmeras não funcionam e agem nos momentos em que as fiscalías (órgão equivalente ao Ministério Público no Brasil) estão fechadas. Em muitos casos, as vítimas desaparecem às quintas-feiras — antes do fim de semana, quando os órgãos de investigação não operam. “Os desaparecimentos viraram um ofício”, afirma Balderas.

Liliana Meza, do Coletivo Luz de Esperança Desaparecidos Jalisco — um dos mais ativos e influentes do país, com mais de 500 integrantes — viveu isso na pele. Na noite de 22 de outubro de 2020, um grupo armado invadiu sua casa, na região de Guadalajara, capital do estado de Jalisco, apresentando-se como agentes da polícia e do Ministério Público. Sem dar explicações, levaram à força seu filho mais velho, Carlos Maximiliano, então com 18 anos. Meza tentou impedi-los e teve uma pistola apontada para a cabeça. A ordem de prisão que alegavam ter nunca existiu. Cinco anos e meio depois, Carlos Maximiliano continua desaparecido — e as imagens que poderiam comprovar o sequestro foram deletadas, como acontece em muitos casos semelhantes.
O mecanismo mais comum por trás dos desaparecimentos é o recrutamento forçado. O perfil das vítimas é variado, mas, na maioria dos casos, são homens jovens sem qualquer vínculo com o crime. Segundo a cofundadora do coletivo, o destino dessas pessoas é perturbador. Há jovens enviados a enfrentamentos entre facções e a narcolaboratórios, mas muitos são obrigados a trabalhar em colheitas ou em serviços domésticos — formas de escravidão moderna. O controle é mantido pelo terror: os sequestrados são levados a acampamentos em serras isoladas, estrategicamente posicionados nas fronteiras entre estados. Quando a polícia de um estado se aproxima, os grupos simplesmente cruzam para o estado vizinho, onde aquela jurisdição não tem alcance.
Fiscalías: ineficiência, corrupção e conluio
No primeiro ano do governo da presidenta Claudia Sheinbaum, o Estado do México e a Cidade do México registraram o maior número de novos desaparecimentos do país: 2.011 e 1.915 casos, respectivamente, segundo o RNPDNO. Em março do ano passado, Sheinbaum apresentou uma “Declaração sobre Pessoas Desaparecidas” que foi duramente criticada por 158 coletivos de familiares, que a acusaram de demonstrar “um enorme desconhecimento do fenômeno” e de ter excluído as vítimas da elaboração do documento. O problema, no entanto, continua crescendo — e não parece haver ações concretas para enfrentá-lo.
No México, a maioria das investigações sobre desaparecimentos recai sobre as Fiscalías de cada estado. O problema é que essas instituições não têm recursos, capacidade ou pessoal suficiente. As unidades especializadas em busca de desaparecidos, criadas para investigar e localizar essas pessoas, tampouco cumprem sua função. A situação é tão grave que a própria Procuradora-Geral da República, Ernestina Godoy, reconheceu publicamente que as instituições não funcionam e precisam ser fortalecidas. Em abril de 2026, o Comitê da ONU contra o Desaparecimento Forçado (CED) foi além: identificou indícios de que os desaparecimentos ocorrem em alguns casos com participação direta de servidores públicos e, em outros, com sua autorização ou aquiescência.
A situação é tão grave que a própria Procuradora-Geral da República, Ernestina Godoy, reconheceu publicamente que as instituições não funcionam e precisam ser fortalecidas.
A burocracia e a falta de coordenação entre estados travam ainda mais o andamento dos casos. O do irmão de Alonso ilustra bem o impasse: ele morava na Cidade do México, mas desapareceu no Estado do México — e nenhum dos dois governos avançou nas investigações. Quando as autoridades identificaram a questão, informaram que precisariam enviar uma solicitação de colaboração com prazo de mais de 15 dias. Até hoje, a investigação nunca andou. “Essa falta de coordenação pode significar a diferença entre a vida e a morte de uma pessoa desaparecida. Deveriam ser nossos aliados, não um obstáculo no caminho”, lamenta Alonso.
A maioria das mães buscadoras ouvidas pela reportagem afirma ter mais medo das autoridades do que dos próprios criminosos — e muitas relataram ameaças e tentativas de extorsão ao tentar buscar seus familiares. Uma delas é Alonso. Ela e o pai do irmão pediram medidas de proteção à Fiscalía do Estado do México — e até hoje não receberam resposta. “Comecei a receber mensagens de alguém que dizia ter o celular do meu irmão e queria ‘cobrar’. A ameaça era clara: se não pagassem, o mesmo aconteceria com a família. Depois vieram as extorsões: ‘Eu sei o que aconteceu com ele — me dê dinheiro e eu te conto'”, relata. Os dois tiveram que mudar de casa e de número de telefone.
Nesse cenário de ameaças e abandono institucional, são as próprias famílias que assumem o papel do Estado. “As mães buscadoras sabem procurar os desaparecidos melhor do que as próprias fiscalías, que acabam cumprindo apenas um papel de observadoras nessas buscas”, afirma Balderas. Para a pesquisadora, o que está em jogo vai além de cada caso individual: “Como você vai combater algo se as autoridades não reconhecem isso como um problema? As mães buscadoras fazem com que os desaparecidos não sejam esquecidos. Se elas desaparecerem, seria um desaparecimento duplo: físico e público”, alerta.
Pequenos avanços
Foi exatamente essa pressão constante — das manifestações nas ruas e nos noticiários — que começou a forçar mudanças. Em Jalisco, estado que concentra o maior número de desaparecidos do país — o Coletivo Luz de Esperança foi o primeiro a conquistar avanços concretos.
Foi exatamente essa pressão constante — das manifestações nas ruas e nos noticiários — que começou a forçar mudanças.
O mais significativo foi a aprovação, em novembro de 2025, da lei “Famílias Buscadoras, Famílias Prioritárias” pelo Congresso estadual — a primeira do seu tipo no país e na América Latina —, que reconhece as famílias dos desaparecidos como grupo prioritário, garantindo-lhes acesso a programas de educação, saúde e bem-estar social.
Em abril de 2024, o caso de Carlos Maximiliano, filho de Liliana Meza, tornou-se o primeiro em Jalisco reconhecido como desaparecimento forçado por um juiz federal, gerando jurisprudência aplicável a casos semelhantes. O juiz também reconheceu que houve participação ou aquiescência de agentes do Estado.
Também houve uma mudança de postura do governo estadual de Jalisco. Em dezembro de 2024, o governador Pablo Lemus Navarro reconheceu abertamente a gravidade da crise, abriu mesas de trabalho e permitiu que os coletivos participassem da escolha dos responsáveis pelas instituições de busca.
Para Balderas, é necessária a reforma das fiscalías estaduais. “O sistema judicial está profundamente danificado pela ineficiência, a corrupção e o conluio com o crime organizado, e isso precisa mudar”, defende a pesquisadora.
Para Alonso, a saída exige uma transformação ainda mais profunda. “Precisamos desmilitarizar o país e criar uma política de justiça de transição — que ofereça uma saída real para os jovens que estão dentro dos grupos criminosos. É possível reconstruir um país cujo tecido social está tão destruído. Mas para isso é preciso vontade política”, afirma. Enquanto essa vontade não chega, sua força vem de outro lugar: “Nossa luta depende das autoridades porque elas têm os recursos e as ferramentas, mas encontro forças na coletividade, na organização das famílias..”
Liliana Meza, que há cinco anos e meio busca o filho, não abre mão da esperança. “Tenho certeza de que essa luta que nós começamos vai trazer resultados, e que esse período terrível pelo qual passamos há décadas vai, em algum momento, ficar nos livros de história do nosso país”, conclui.
Nota: A reportagem procurou a Secretaria de Segurança Pública federal, a Secretaria de Segurança Pública da Cidade do México, a Secretaria de Segurança Pública de Jalisco e a Comissão Nacional de Direitos Humanos, mas nenhum dos órgãos respondeu até o fechamento desta edição. A Comissão de Busca de Pessoas de Jalisco foi procurada e recusou conceder entrevista.
Augusta Lunardi é uma jornalista multimídia brasileira que mora em Brasília. Seu trabalho já foi publicado na France 24 e em outras emissoras francesas (TF1, Arte, France 24), em veículos brasileiros como a Agência Pública e a Piauí, e na Reuters. Ela cobre temas relacionados a direitos humanos e crises institucionais na América Latina, escrevendo sobre o massacre da Penha no Rio de Janeiro (2025) e o bloqueio energético dos EUA contra Cuba (2026).
