“Não somos Vale do Lítio!”  

No Vale do Jequitinhonha, Brasil, a promessa de uma transição verde traz mais violência extrativista, mas as comunidades estão resistindo e reivindicando o direito de moldar o próprio futuro.

Moradores que resistem à extração de lítio no Vale do Jequitinhonha, no Brasil, exibem uma faixa onde se lê: ‘Somos o Vale do Jequitinhonha. Não somos Vale do Lítio!’. (Isis Medeiros

Este artigo foi publicado em inglês na edição de outono de 2025 de nossa revista trimestral NACLA Report.


O estado brasileiro de Minas Gerais é um território marcado pela mineração, seu próprio nome um tributo às minas que moldam sua paisagem desde os tempos coloniais. Por séculos, ouro, ferro e pedras preciosas foram saqueados de suas montanhas para enriquecer potências imperiais, enquanto as comunidades locais permaneceram empobrecidas em meio a rios envenenados e colinas desmatadas.  

Esse legado de mineração não é uma relíquia do passado, mas algo violentamente presente e em intensificação.  

Hoje, Minas Gerais ainda sofre com a devastação de dois dos desastres de mineração mais letais do Brasil: Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019. Essas catástrofes mataram centenas de pessoas, envenenaram cursos d´água e apagaram comunidades inteiras do mapa. Gravadas na memória coletiva do estado, elas revelaram os custos brutais do extrativismo, e a impunidade da qual o setor minerador se aproveita. Apesar dessas cicatrizes, os governos estadual e federal continuam a promover a mineração em nome da mitigação climática e do desenvolvimento econômico, agora sob a bandeira da sustentabilidade.  

O Vale do Jequitinhonha é a mais recente fronteira dessa exploração repaginada. Após ter sido historicamente negligenciado pelo governo, passou a ser apresentado como o “Vale do Lítio” do Brasil, um fornecedor crítico da chamada revolução da energia verde. Mas, para aqueles que vivem sobre essas reservas de lítio, o futuro se parece muito com o passado: a riqueza mineral é drenada, enquanto as comunidades locais ficam com a poeira e a destruição. Essa não é uma história de desenvolvimento sustentável, mas sim de continuidade da expansão capitalista, e de como o capitalismo verde está reproduzindo – e até intensificando – a violência extrativista sob o rótulo da sustentabilidade.  

Vale do Jequitinhonha, não o Vale do Lítio 

Localizado no nordeste de Minas Gerais, o Vale do Jequitinhonha é um lugar de profundas riquezas culturais e naturais. Conhecido como parte do sertão brasileiro, uma região semiárida marcada tanto pela resiliência quanto pela vulnerabilidade, o vale do rio abriga 52 municípios, diversas comunidades quilombolas e os povos indígenas Aranã, Pankararu e Pataxó, cada um carregando histórias únicas de comunidade, tradição e luta.  

O sertão brasileiro é frequentemente caracterizado por seu clima severo e escassez de água, mas também é um símbolo de sobrevivência cultural. Por gerações, o povo do Jequitinhonha se adaptou às condições do clima semiárido, cultivando tradições de trabalho coletivo, artesanato e práticas agrícolas sustentáveis.  

Apesar de sua riqueza cultural e natural, o Vale do Jequitinhonha continua sendo uma das regiões mais estruturalmente marginalizadas do Brasil. Historicamente conhecido como o “Vale da Miséria” devido à pobreza e ao subdesenvolvimento, a região ainda enfrenta altas taxas de analfabetismo, trabalho infantil, migração, mortalidade infantil, baixa expectativa de vida e fraco acesso a serviços e infraestrutura. Entretanto, esses desafios não refletem isolamento geográfico, mas abandono político e econômico.  

É precisamente essa vulnerabilidade estrutural que o governo e investidores privados agora exploram sob o disfarce de progresso ecológico. Mas, para as pessoas que vivem na região, o Vale não é um depósito de minerais. É lar, história, memória. E a reformulação da sua terra como uma fronteira mineradora ameaça apagar esse legado em nome da expansão capitalista verde.  

Transição verde ou greenwashing

Quando o governador Romeu Zema lançou o projeto Vale do Lítio na Nasdaq, em 2023, ele o chamou de uma situação de lucro mútuo: uma chance de atrair investimento estrangeiro, melhorar a imagem verde do Brasil e tirar uma das regiões mais pobres do país do subdesenvolvimento. Apoiada por estudos geológicos que identificaram 45 depósitos de lítio em 14 municípios – representando até 8 por cento das reservas globais – a empresa canadense Sigma Lithium iniciou operações em larga escala naquele mesmo ano. No início de 2025, anunciou um aumento de 25 por cento na projeção de extração, e lucro.  

A Sigma promove suas operações sob o selo “quíntuplo zero”, alegando zero uso de água potável, de barragens de rejeito, de produtos químicos tóxicos, de emissões no processo e de energia suja. Essa imagem polida, contudo, esconde custos socioambientais crescentes no território. A empresa tem licença para extrair 150 metros cúbicos de água por hora do rio Jequitinhonha – o equivalente a 3,6 milhões de litros por dia – enquanto famílias locais sobrevivem com apenas 30 a 50 litros de água por pessoa por dia. A extração diária da Sigma poderia atender às necessidades básicas de mais de 70 mil pessoas.  

A mineração de lítio em rocha dura também é conhecida por causar significativa degradação dos ecossistemas, incluindo esgotamento da água, erosão, perda da biodiversidade e enormes volumes de rocha descartada, que podem constituir até 94 por cento do material extraído. A Sigma apresenta o uso do empilhamento a seco, em vez de barragens de rejeito, como uma alternativa responsável à luz da memória dos desastres de Mariana e Brumadinho. Mas uma recente avaliação técnica, realizada por pesquisadores brasileiros e internacionais, questiona este argumento. O relatório critica a dependência da Sigma em técnicas de mineração a céu aberto obsoletas, que podem gerar danos socioambientais até 30 vezes maiores do que tecnologias menos invasivas já utilizadas na região. Ele também aponta falhas no processo de licenciamento ambiental da empresa, que é fragmentado e pouco transparente, destacando a ausência de estudos de impacto cumulativo e a falta de consultas comunitárias, em violação das normas nacionais e internacionais. Nas palavras de um dos pesquisadores envolvidos, isso não é mineração sustentável, mas sim “greenwashing burocrático”.  

Quando o veículo investigativo Observatório da Mineração procurou a empresa para comentar o relatório técnico, a Sigma respondeu com uma notificação extrajudicial tentando impedir a publicação – ato amplamente criticado como um ataque à liberdade de imprensa e uma tática de silenciamento. Segundo um comunicador social de Pedra Azul, a empresa convidou lideranças locais para visitar a mina e conhecer seus supostos impactos positivos. “Quando chegamos, pediram que, ao nos referirmos à Sigma, evitássemos usar o termo ‘mineradora’ e passássemos a chamá-la de ‘indústria verde’”.  

Esses esforços coordenados para gerir percepções, em vez de enfrentar preocupações ambientais e de direitos humanos, lançam ainda mais dúvidas sobre as alegações de sustentabilidade da Sigma. O abismo entre a imagem de alta tecnologia e emissões zero da empresa e as realidades vividas no Jequitinhonha revela uma lógica mais profunda de colonialismo verde, em que a sustentabilidade é aplicada de forma seletiva e o sacrifício local é o custo não declarado da transformação energética global.  

Extrativismo verde e a continuidade da violência  

Para os moradores do Vale do Jequitinhonha, o boom do lítio não trouxe o desenvolvimento nem a sustentabilidade prometidos pelos discursos governamentais e corporativos. Em cidades como Araçuaí e Itinga, os residentes falam de escassez de água, preço do aluguel em disparada e crianças abandonando a escola para assumir trabalhos informais em áreas de mineração. “Eles extraem o lítio daqui, mas deixam apenas poeira e dívidas”, compartilhou uma moradora local.  

Apesar da escala abrangente dessas transformações, a maioria dos moradores nunca foi devidamente informada ou consultada.  Entrevistas realizadas no final de 2023 revelaram que muitos não tinham acesso a informações oficiais sobre os projetos de lítio. “Se existe algum canal do governo para explicar o que está acontecendo, nunca vimos”, observou um dos entrevistados (os testemunhos são anônimos para proteger a segurança dos moradores). Em vez disso, rumores circulavam pelo WhatsApp, audiências públicas careciam de documentação acessível e, quando líderes comunitários solicitaram os planos do projeto, ouviram que eles existiam apenas em inglês – e mesmo assim nunca foram compartilhados.  

Para muitos do Vale do Jequitinhonha, isso é um déjà vu. Eles se lembram dos desastres de mineração em Mariana e Brumadinho. Também se lembram das promessas de empregos, infraestrutura e modernidade. “Já vimos esse filme antes”, disse uma ativista. “Isso não tem a ver com energia limpa. É sobre pintar de verde o mesmo modelo que sempre nos sacrificou”.  

Energia limpa em Berlim significa contaminação em Araçuaí. Um carro elétrico na Califórnia custa um rio em Virgem da Lapa.

A mineração de lítio é uma forma de extrativismo verde: uma repaginada de práticas de desenvolvimento historicamente exploratórias, agora mascaradas pela linguagem da sustentabilidade. O lítio substitui o petróleo, os carros elétricos substituem os motores a combustão, mas a lógica subjacente permanece inalterada. É um modelo enraizado em dependência e expropriação, no qual o Brasil fornece matérias-primas e o Norte Global manufatura os lucros. Energia limpa em Berlim significa contaminação em Araçuaí. Um carro elétrico na Califórnia custa um rio em Virgem da Lapa.  

Isso não se trata apenas de degradação ambiental, mas também de estruturas de poder e desigualdade. O extrativismo verde transforma regiões inteiras em “zonas de sacrifício”: espaços considerados descartáveis a serviço da acumulação de capital. Inspirando-nos na teoria marxista da dependência, vemos como a posição do Brasil como exportador de matérias-primas o aprisiona em uma estrutura de troca desigual. Dentro dessa estrutura, comunidades como as do Vale do Jequitinhonha pagam o preço mais alto.  

Essa dinâmica não é neutra; é sustentada por coerção política, dependência econômica e controle social. A transformação do Vale do Jequitinhonha em Vale do Lítio é emblemática dessa lógica: vendida como caminho para o desenvolvimento sustentável, é, na realidade, o aprofundamento de padrões coloniais de extração de recursos mascarados pela transição verde.  

Como resumiu um morador, com uma mistura de resignação e clareza: “A gente não tem eletricidade em casa. Mas eles querem construir um aeroporto aqui… para quem? Para executivos estrangeiros voarem para cá e irem embora enquanto nós perdemos a nossa terra?” 

A pilha de rejeitos de rocha da Sigma, resultante da extração de lítio no Vale do Jequitinhonha, já cobre uma área de 560.000 metros quadrados. (Isis Medeiros)

O modelo extrativista como um sistema de violência 

No Vale do Jequitinhonha, a violência do extrativismo é dolorosamente visível – em leitos de rios rachados, águas contaminadas e nas areias movediças do deslocamento. Para quem vive ali, a extração de lítio não é apenas uma atividade econômica; é um sistema diário de violência, reproduzido pelas máquinas pesadas que cavam a terra e pela poeira que assenta sobre suas vidas. Essa violência não se limita ao dano físico, mas se estende às dimensões sociais, econômicas, ambientais e culturais, remodelando tanto a paisagem quanto a vida comunitária.  

Inspirando-nos em perspectivas feministas e decoloniais sobre a paz, entendemos o extrativismo não apenas como uma forma de exploração econômica, mas como uma prática sistêmica que organiza poder, espaço e a própria vida em torno da lógica da extração. Nesse sistema, a violência não é um desvio de curso ou um acidente; está incorporada em sua estrutura. Esse sistema se mantém por meio de três formas de violência que se reforçam mutuamente: direta, estrutural e cultural.  

Violência direta 

A violência direta se manifesta como violência visível contra humanos e mais-que-humanos, incluindo violações de direitos humanos, desapropriação de terras, degradação ambiental, extinção de espécies, riscos à saúde, violência racial e de gênero, intimidação e assassinatos de defensores ambientais.  

No Vale do Jequitinhonha, os moradores relataram de forma consistente padrões de deslocamento forçado e desapropriação em áreas de interesse minerário. Esses relatos, coletados por meio de trabalho de campo e testemunhos locais, apontam para um clima crescente de medo e insegurança. Como compartilhou um entrevistado em Virgem da Lapa: “Muita gente tem medo de perder a terra. As empresas chegam e falam: ‘você só tem controle da superfície da terra, o subsolo pertence ao governo, você não tem direito nenhum’. Então, se encontrarem minerais, queira ou não, eles vão explorar”.  

Os minerais não são o único recurso pelos quais as empresas estão sondando. Moradores relataram que, ao mesmo tempo em que realizam pesquisas geológicas para o lítio, as empresas também estão perfurando poços artesianos para garantir água para a extração e o processamento. “O rio Piauí corre o risco de ser completamente soterrado porque fica muito próximo de onde a mineração está acontecendo”, nos contou uma líder indígena em Cintra Vermelha.  

Além disso, membros da comunidade em toda a região têm levantado preocupações crescentes sobre os efeitos da mineração de lítio na qualidade da água e do ar. Moradores do Quilombo Jenipapo Pinto relataram que as primeiras chuvas sazonais produziram uma “água leitosa”, que eles atribuíram a contaminantes transportados pelo ar das operações minerárias próximas. Vários residentes descreveram uma poeira branca persistente que se deposita em casas e plantações, e notaram o agravamento de problemas respiratórios desde o início da atividade de mineração. Pesquisas já demonstraram que a mineração do lítio libera poeira respirável e sílica cristalina – ambas associadas a doenças pulmonares graves, como silicose, fibrose e câncer. Compostos de lítio também podem danificar rins, tireoide e sistema nervoso por inalação ou contato com a pele. Moradores e agentes comunitários de saúde também relataram aumento de casos de ansiedade, insônia e estresse emocional, que relacionaram ao barulho constante, explosões, poeira e à desestruturação social causada pela mineração.  

Um estudo recente descobriu que amostras de água da bacia do rio Jequitinhonha apresentavam níveis de alumínio até nove vezes maiores que o limite recomendado. Solos e sedimentos de córregos também revelaram forte contaminação. Algumas amostras de vegetais locais continham mais de 1.000mg/kg de alumínio – evidência de que a contaminação já entrou na cadeia alimentar. Exames de sangue encontraram níveis elevados de alumínio em 68% dos moradores e em 94% daqueles em diálise. Especialistas acreditam que a contaminação segue um percurso rocha-solo-água-alimento e pode estar afetando mais de 3.000 pessoas que vivem na região.  

Violência estrutural 

A violência estrutural também é evidente no Jequitinhonha, embora muitas vezes seja menos imediatamente perceptível. As práticas extrativistas reproduzem diversas desigualdades na comunidade local em termos de gênero, raça, saúde e direitos à terra. A violência também se manifesta por meio de dependências econômicas crônicas, marginalização política e do colapso dos meios de subsistência locais.  

A rápida expansão da mineração de lítio sobrecarregou severamente a já limitada infraestrutura e os serviços sociais da região. Municípios como Araçuaí não têm capacidade institucional para lidar com a escala das operações de mineração. Em Itinga, a falta de infraestrutura básica como estradas, aeroportos e lojas de materiais de construção levou as mineradoras a instalarem operações em outros locais, extraindo lítio sem contribuir para o desenvolvimento econômico local. “Eles tiram o lítio daqui e não deixam nada”, lamentou um morador.  

O boom desordenado da mineração também leva à sobrecarga dos serviços públicos, especialmente na saúde. As unidades de saúde estão sobrecarregadas tanto pelo afluxo de trabalhadores quanto pelos impactos da mineração na saúde. Moradores de Araçuaí relatam tempos de espera em hospitais que variam de 40 minutos a duas ou três horas. Uma agente comunitária de saúde relatou esperas de até 12 horas e disse que os hospitais precisaram montar tendas e fileiras de cadeiras do lado de fora para acomodar pacientes aguardando atendimento.  

A pressão estrutural também se sente na deterioração da infraestrutura. Em todo o Vale, moradores descrevem casas abaladas por explosões, paredes rachadas e estradas mal-conservadas destruídas pelos caminhões pesados da mineração. “Se o lítio é nosso e a riqueza é nossa, por que nossas estradas estão todas esburacadas?”, perguntou um residente.  

A montanha de rejeitos da mineração de lítio eleva-se sobre a comunidade de Poço Dantas, a apenas 90 metros de distância. (Isis Medeiros)

Uma das manifestações mais claras dessa violência econômica, relatada em várias cidades, é o aumento do custo de vida. Moradores descrevem especulação imobiliária generalizada ligada ao boom da mineração, com proprietários despejando inquilinos e pessoas deixando suas próprias casas para alugá-las às mineradoras por preços mais altos. Embora os dados oficiais sobre deslocamento sejam escassos, inúmeros testemunhos sugerem que a insegurança habitacional está aumentando, deixando muitos sem condições de permanecer em suas comunidades.  

Essa mudança econômica também sufoca outros setores locais que há muito sustentam a vida comunitária. “Aqui temos feiras, artesanato e agricultura familiar. Tudo isso está ligado à economia regional. Agora, de repente, todas essas atividades estão ficando para trás, e todas as esperanças são depositadas na mineração de lítio”, compartilhou uma moradora de Cinta Vermelha. Essa reorientação das prioridades econômicas gerou insegurança e ceticismo quanto à ideia de que “desenvolvimento” esteja exclusivamente ligado à extração mineral. Um residente explicou que não é contra o “desenvolvimento” ou o “lítio verde”, mas que “o lítio não pode ditar todo o desenvolvimento da região. E desenvolvimento não é só econômico. Nós também estamos exigindo desenvolvimento social”.  

Além disso, os empregos criados pelo boom da mineração são amplamente percebidos como precários e terceirizados. Muitos dos trabalhadores são contratados em regime temporário e de baixa remuneração, com proteções trabalhistas limitadas e sem garantias de longo prazo. Eles recebem “salários muito abaixo do que estão produzindo para as empresas”, segundo um morador de Virgem da Lapa. Em vez de investir no desenvolvimento da mão de obra local ou em capacitação profissional, as empresas mineradoras optam por trazer trabalhadores de outras regiões. “Eles dão emprego para gente de fora enquanto nos deixam com as consequências”, disse um membro da comunidade em Araçuaí. Embora a empresa afirme ter criado mais de 18.000 empregos no Vale, os moradores dizem que isso não se traduziu em oportunidades econômicas reais. Essas inconsistências aprofundam a desconfiança local e reforçam a percepção de que os chamados planos de desenvolvimento não foram pensados para seu benefício.  

Esse influxo de mão de obra externa também introduziu novas formas de tensão social. Diversos entrevistados expressaram preocupação crescente com a segurança pública, especialmente para mulheres e meninas. Embora faltem dados oficiais sobre criminalidade, moradores descreveram um aumento percebido da violência de gênero, agravado pela ausência de serviços adequados para responder a tais ameaças. Essa insegurança de gênero acrescenta outra camada ao custo social do extrativismo, revelando como o boom minerário não apenas desestrutura a vida econômica, mas também ameaça as bases sociais de comunidades já vulneráveis.  

Essa pressão econômica também afeta o acesso das crianças à educação. Um professor local observou que as mineradoras contratam trabalhadores menores de idade, prejudicando a educação dos jovens e aumentando as taxas de evasão escolar. Essa realidade reflete a dinâmica mais ampla da violência estrutural, em que o acesso à educação – um pilar essencial para romper ciclos de pobreza – é comprometido pelas pressões econômicas imediatas do capitalismo extrativista. Em vez de contribuir para o desenvolvimento comunitário, o boom da mineração está aprofundando os ciclos de desigualdade econômica e retirando oportunidades das futuras gerações.  

Violência cultural 

A violência cultural é talvez a forma mais insidiosa, porque opera abaixo da superfície, moldando narrativas, reescrevendo histórias e redefinindo o valor da terra e das comunidades. Violência cultural é o conjunto de crenças, ideologias e valores que justificam e legitimam a violência estrutural e direta, fazendo com que a exploração pareça aceitável ou até necessária. Neste caso, a reconfiguração da região como Vale do Lítio é uma forma de violência cultural. Essa mudança não é apenas linguística, mas simbólica de tentativas mais profundas de apagar as conexões históricas e culturais da comunidade com a terra.  

Como lamentou uma moradora de Itaobim: “O governador quer mudar a nossa cultura!” Essa reconfiguração é mais do que uma estratégia de marketing, é uma transformação ideológica que reformula a terra não como um espaço de comunidade e herança, mas como uma fronteira mineral a ser explorada para os mercados globais. Essa mudança simbólica permite e justifica práticas extrativistas, obscurecendo os laços históricos da comunidade com a terra e seu direito à autodeterminação.  

A violência cultural se estende ainda mais ao tentar romper as conexões profundas entre a população local e o rio Jequitinhonha, elemento central da vida cultural e espiritual. “À medida que um projeto altera a paisagem e muda completamente o território, ele também ameaça as manifestações culturais”, expressou um morador de Pedra Azul. O rio é mais do que uma fonte de água, é a corrente vital dos rituais comunitários, festas e da vida cotidiana. Sua contaminação e esgotamento ameaçam não apenas os meios de subsistência, mas também a continuidade de expressões culturais ligadas à sua presença. “Se o rio morrer, todas essas manifestações morrem de alguma forma”, continuou o morador, destacando o risco existencial representado pela expansão extrativista.  

Para comunidades indígenas e quilombolas, a violência cultural é ainda mais profunda. Seus modos de vida estão intimamente ligados à terra, não apenas para a sobrevivência, mas como questão de identidade, espiritualidade e patrimônio. “Nosso território é sagrado”, explicou um líder do Quilombo Jenipapo Pinto. “O cuidado com a natureza, a espiritualidade, o uso de remédios naturais para curar doenças, as rezas, os rituais – tudo isso afeta completamente os aspectos culturais e sociais de nossas comunidades”. Esse sentimento reflete a violência mais ampla do extrativismo: ele não extrai apenas minerais – extrai culturas, deslocando tradições e rompendo conexões ancestrais com a terra.  

A violência cultural não é apenas uma consequência da mineração de lítio: é uma condição necessária para que ela exista. Para que a mineração prossiga sem contestação, as mineradoras precisam deslegitimar ou tornar invisíveis as identidades, histórias e práticas espirituais das comunidades. Reconfigurar o Jequitinhonha como Vale do Lítio redefine a terra como mercadoria em vez de espaço vivido, justificando a erosão dos laços culturais sob o disfarce do desenvolvimento “sustentável”.  

Vista das águas em estiagem do rio Piauí, no Vale do Jequitinhonha, no Brasil. Ao fundo, a pilha de rejeitos da mineração de lítio domina a paisagem. (Isis Medeiros)

Resistência e imaginação: reivindicando o futuro 

A resistência no Vale do Jequitinhonha começa com a defesa do território, mas vai muito além da oposição. Para os moradores locais, a terra é a base da cultura, da memória e da sobrevivência. “O rio é vida para nós. Se ele morre, uma parte de nós morre também”, expressou um residente de Pedra Azul, refletindo sobre a profunda conexão entre a terra e a identidade comunitária. À medida que a mineração se expande, as comunidades respondem protegendo fontes de água, terras ancestrais e a vida comunitária.  

Comunidades quilombolas e indígenas estão se organizando para reivindicar seus direitos à terra e à soberania. “Nós também temos o direito de falar e de ser ouvidos. Em nenhum momento fomos consultados”, afirmou uma líder de Cintra Vermelha de Jundiba. Grupos de base como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e associações comunitárias estão se mobilizando para resistir ao deslocamento e denunciar o silenciamento das vozes locais, exigindo seu direito à consulta. Ao fazê-lo, não apenas defendem direitos territoriais, mas também afirmam a soberania popular sobre a extração mineral, desafiando a ideia de que empresas podem reivindicar a riqueza do lítio sem o consentimento e o controle das comunidades.  

Mas a resistência também toma forma no trabalho cotidiano de construção de alternativas. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ajudou a recuperar terras para a produção agroecológica em locais como Felisburgo e Itaobim. No acampamento Terra Prometida, a reforma agrária, a soberania alimentar e o artesanato em barro andam de mãos dadas. Como explicam as mulheres que lideram esses projetos, trabalhar a terra e o barro é uma “arte que nasce das mãos”. Suas mãos “moldam mais do que barro, moldam histórias e identidades. Cada peça carrega uma memória”. Reconhecido como Patrimônio Cultural de Minas Gerais, o trabalho em barro é uma forma de conhecimento ancestral e, como compartilhou uma artesã, “mais do que uma fonte de renda, é um ponto de encontro para as pessoas e um organizador da vida cotidiana”.  

O chamado por economias locais está entrelaçado com as demandas por diversificação econômica além da mineração de lítio. Em assembleias e conselhos comunitários, moradores expressam sua visão de projetos econômicos que sirvam à comunidade em vez de extrair dela. Para eles, o verdadeiro desenvolvimento está enraizado na autonomia e no controle local, não na dependência de indústrias extrativistas.  

A memória e a preservação cultural são igualmente centrais. Uma recente exposição de arte em Virgem da Lapa homenageou a história de mais de 60 comunidades quilombolas da região. Por meio de músicas, fotografias e objetos ancestrais, o projeto celebrou a força de um povo que resistiu à colonização por séculos, e que continua resistindo sob novas formas de violência extrativista hoje. Essa retomada da memória é um ato político pois afirma que o Jequitinhonha não é apenas um depósito mineral, mas um território vivo, com sua própria história, dignidade e direito à autodeterminação.  

A luta no Jequitinhonha não é apenas uma luta contra a mineração. É uma luta pelo direito de imaginar um futuro em que o desenvolvimento seja definido pelo bem-estar da comunidade, e não pelo lucro corporativo. Essa visão contrasta fortemente com a lógica do capitalismo verde, que promete sustentabilidade enquanto aprofunda o modelo extrativista que afirma superar. Para as comunidades do Jequitinhonha, a verdadeira sustentabilidade não é medida por baterias de lítio e carros elétricos, mas pelo acesso à água limpa, à terra saudável e a uma vida cultural vibrante.  


Bárbara Magalhães Teixeira (ela) é pesquisadora e educadora na área da paz, natural de Minas Gerais, Brasil. Seu trabalho se concentra na dinâmica da extração de recursos e nas diferentes formas de violência e conflitos inerentes a esse processo. Ela possui doutorado em Ciência Política pela Universidade de Lund, na Suécia.

Marina Oliveira (ela) é doutoranda em Relações Internacionais pela PUC-Minas, Brasil. Ela é autora de “O preço de um crime socioambiental: os bastidores do processo de reparação do rompimento da barragem em Brumadinho” e ativista do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e do Movimento Brasil Popular (MBP).

Isis Medeiros (ela) é uma fotógrafa popular de Minas Gerais, Brasil, dedicada ao fotojornalismo e à fotografia documental. Seu trabalho se concentra na justiça social, questões ambientais e direitos humanos.